WeStoreOnTex. E se a t-shirt que tem vestida recarregasse a bateria do telemóvel?

Imagine que, durante a corrida matinal, o seu smartphone fica sem bateria e deixa de poder ouvir a música que lhe marca o ritmo ou utilizar a app que monitoriza o seu exercício físico. E se o tecido da t-shirt que tem vestida fosse capaz de recarregar a bateria do seu telemóvel? É o que acontece quando se junta química, física, nanotecnologia e têxteis (ao empreendedorismo e gestão) numa tecnologia que chega do Norte, tradicionalmente ligado à indústria têxtil, e que permite o armazenamento de energia para alimentar dispositivos eletrónicos e sensores integrados na roupa.

 

Clara Pereira, 36 anos, André Pereira, 38, e Rui Costa, 26, estão por detrás da criação destes têxteis funcionais inteligentes que estão a ser desenvolvidos na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP). A WeStoreOnTex venceu, na semana passada, entre 17 projetos a concurso, o Pitch Day da Escola de Startups, iniciativa promovida pelo Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto (UPTEC).

 

"É mesmo como uma bateria. É a mesma coisa que termos um telemóvel em cima da nossa roupa. Esse tecido seria capaz de alimentar esse telemóvel”, explica André Pereira, ao Observador.

 

O projeto começou há dois anos e meio, quando os investigadores começaram a estudar como seria possível modificar um tecido para conseguir armazenar energia. No ano seguinte, Rui Costa iniciou a tese de mestrado e integrou a equipa, numa altura em que conseguiram começar a fabricar estes dispositivos que armazenam energia no próprio têxtil. Neste momento, estão a ser trabalhados no setor do desporto, atividade física e bem-estar. Estima-se que, em 2020, este mercado atingirá os 1.500 milhões de euros em vendas, representando 17% do mercado global dos têxteis eletrónicos.

 

"Atualmente, os sensores de monitorização do ritmo cardíaco, que são integrados nas próprias peças de vestuário, ainda são alimentados por pilhas e baterias. As baterias têm problemas como a rigidez e demoram muito tempo a carregar. Um desportista que tem os timings todos contados para começar a sua atividade física não tem tempo para esperar que os dispositivos integrados no têxtil carreguem”, explica Clara Pereira.

 

O desafio passava, assim, por apresentar uma solução de armazenamento de energia em têxtil mais confortável, flexível, duradoura, segura e com maior rapidez de carregamento. Para isso, os três investigadores conseguiram substituir as pilhas por baterias no próprio tecido, sem dispositivos plásticos e fios para fazer contactos com os sensores e sem haver um “bloco rígido” na peça de vestuário, tornando-a “flexível e confortável” para o utilizador.

 

Ao mesmo tempo, os investigadores dispensaram o uso de lítio, presente na maioria das baterias, reduzindo o risco de ignição (estamos fartos de baterias que explodem, não é?).

 

"É como se fosse uma bateria normal mas não tem a tecnologia da bateria. Tem muito mais benefícios: o carregamento é mais rápido, o tecido é mais flexível e tem uma longevidade maior, ou seja, não fica viciada como as tradicionais baterias”, explica André Pereira.

 

A duração da bateria ronda, neste momento, os 30 a 40 minutos, “dependendo do tipo de energia que é necessária”, nota o investigador. Mas, adianta, está já a ser estudado o aumento do tempo de duração da bateria, que “dentro de algum tempo poderá aguentar horas”.

 

Neste momento, a WeStoreOnTex ainda não está formalmente constituída como empresa, mas tem estabelecido contactos com empresas de comercialização de têxteis (t-shirts e braçadeiras, por exemplo) e acessórios de monitorização de batimento cardíaco e respiração que poderão integrar a tecnologia desenvolvida pelos investigadores.

 

"Estamos em contacto com outras empresas da área têxtil e de acessórios para fazer a validação final do nosso produto para depois poder pensar em lançar a empresa. Estamos a tentar usar os processos que são utilizados na indústria têxtil para poder fabricar estes dispositivos. Neste momento, não podemos estar a produzir um têxtil de uma forma que só possa ser feita num laboratório. Temos de nos adaptar às condições que existem na indústria têxtil”, nota Clara.

 

Estão, neste momento, a colaborar com o Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário de Portugal (CITEVE) para perceber o tipo de equipamento e a forma como podem modificar o tecido, de acordo com o que a indústria têxtil permite.

 

André acredita que, numa primeira fase, a tecnologia será integrada em “produtos de exclusividade”, para praticantes de desporto do mais alto nível. Mas posteriormente, “dependendo da aceitação”, poderá ficar acessível ao cidadão comum. “O processo é sempre assim. Primeiro, a exclusividade a alto preço, depois começa a baixar (como nos telemóveis), até que daqui a 5, 6 anos, poderá estar acessível a todas as pessoas”, considera.

 

O projeto é financiado pelos laboratórios da FCUP, onde a tecnologia está a ser desenvolvida. A procura de financiamento está a ser uma das dificuldades apontadas pelos investigadores.

 

"Ainda se pensa que a investigação se faz de uma forma gratuita. E isso não acontece. Neste tipo de projetos tecnológicos é preciso um grande investimento na matéria-prima que é utilizada para a produção destes dispositivos”, nota Clara.

 

Enquanto vencedora da oitava edição da Escola de Startups, a WeStoreOnTex será incubada no UPTEC. Com este projeto, a equipa conquistou ainda o terceiro lugar na edição de 2016 do iUP25k – Concurso de Ideias de Negócio da Universidade do Porto no início de junho. Durante o mesmo concurso, receberam o Prémio Best Energy Business, no valor de dois mil euros, patrocinado pela KIC InnoEnergy (empresa europeia focada na educação, inovação e criação de negócios na área da energia sustentável), no âmbito das melhores ideias nas áreas das Tecnologias da Informação e da Energia.

 

Para 2017, o grande objetivo dos três investigadores passa por conseguir colocar o produto no mercado. “As empresas da área têxtil e investidores têm sentido que os wearable e as tecnologias integradas no vestuário têm potencial para chegar ao mercado, pelo próprio contexto do nosso país, em que a área têxtil é muito importante”, nota Clara.

 

 

Notícia publicada no Observador.


Um tecido que guarda energia. E que ganha o prémio de startups do UPTEC

WeStoreONTEX, um projeto que pretende desenvolver tecidos capazes de armazenar energia, ganhou o concurso Pitch Day da Escola de Startups do Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto (UPTEC), que teve lugar ontem na Faculdade de Medicina do Porto.

 

Durante o pitch, os três mentores do projeto que tem vindo a ser trabalhado nos laboratórios do UPTEC mostraram um protótipo de tecido que permitiu manter em funcionamento sensores de temperatura e humidade e ainda um painel de LED.

 

A oitava edição do Pitch Day da Escola de Startups do UPTEC levou ao “palco” 17 startups, que tinham apresentar as respetivas ideias de negócio em 180 segundos. O WeStoreONTEX ganhou o direito à incubação do respetivo negócio no UPTEC, bem como a consultoria jurícia e um tablet Surface Pro, da Microsoft.

 

Além do projeto vencedor foram atribuídas três menções honrosas para as áreas criativas, tecnológica e biotecnologia. A produtora audiovisual Frame ganhou a menção honrosa dedicada para a área criativa com uma proposta de realização de vídeos institucionais em formato de ficção; na área das tecnologias, a menção honrosa foi atribuída à Oko, um agregador de fontes de notícias que apresenta previsões de sucesso; e por fim, na biotecnologia, foi a SurgeonMate distinguida por ter desenvolvido uns óculos que estão aptos a registar atos cirúrgicos.

 

De registar ainda que o Vodafone Power Lab selecionou dois projetos para incubação: uma plataforma que facilita a gestão de festas e que dá pelo nome de Night Out; e ainda ferramenta Vaiivem que pretende facilitar a comunicação entre professores e pais crianças.

 

Ao longo de oito edições, mais de 150 projetos de negócio e 450 passaram pelos quatro meses de formação da Escola de Startups do UPTEC.

 

No auditório da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que albergou a apresentação das ideias de negócio, compareceram mais de 350 pessoas. Mais de 50 dos espetadores seriam investidores, mas Clara Gonçalves, diretora-executiva do UPTEC, recorda que, na maioria dos casos, o objetivo principal «não é tanto angariar investimentos, mas beta testers, que possam experimentar as soluções do ponto de vista tecnológico e de negócio».

 

A diretora executiva do UPTEC considera que, de edição para edição da Escola de Startups, tem havido uma melhoria da qualidade e do posicionamento dos projetos face ao mercado. Pelo que a própria Escola de Startups também deverá vir a registar uma evolução nos tempos mais próximos: «Queremos ter uma dimensão maior, que passa por ter mais parceiros e chegar a mais áreas científicas e tecnológicas. Queremos apostar também em mais projetos que estejam mais próximos da fase de investigação e desenvolvimento e da produção de conhecimento. E outro dos objetivos passa por dar uma dimensão cada vez mais internacional à Escola de Startups».

 

 

Notícia publicada em Exame Informática.